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Aplicar ou não aplicar a Lei Newcomb-Benford em processos eleitorais? Eis a questão.

Por Angela Iara Zotti | 18 de maio de 2015

Desde a antiguidade o ser humano olha para o céu e tenta encontrar respostas sobre a criação do universo. Aristóteles considerava que a Terra era o centro e as estrelas e demais corpos celestes giravam em torno dela. Esse pensamento foi contestado por outro filósofo que propunha que era o Sol, e não a Terra o centro do universo.

Durante um bom tempo houve uma intensa discussão entre os pensadores que defendiam o sistema Geocêntrico (Terra), entre eles Ptolomeu e, outros que defendiam o sistema Heliocêntrico, como Aristarco de Samos e mais tarde Nicolau Copérnico. É público e notório que o físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano Galileu Galilei teve alguns “probleminhas” de caráter científico e religioso ao aperfeiçoar e defender as ideias de Copérnico. Com o tempo a comunidade científica e a sociedade tiveram uma resposta sobre essas divergências.

Esse é um exemplo para demonstrar que todo o assunto científico teve e continuará tendo aqueles que defendem uma ou outra ideia, pensamento ou teoria. É assim desde o estudo da gravidade, da descoberta da eletricidade, da penicilina ou da cura do câncer.

 

Mas onde entra a Lei Newcomb Benford neste post?

O Brasil foi o primeiro país do mundo a realizar eleições eletrônicas para escolher seus representantes. Junto com essa grande inovação, questionamentos surgiram sobre a validade, eficiência e conformidade do processo eleitoral brasileiro. Nas últimas eleições houveram muitas críticas e manifestação de pessoas, em especial nas redes sociais. Isso despertou a necessidade de buscar novos elementos e metodologias que pudessem servir de instrumento para esclarecer estas dúvidas.

Ao revisar a literatura encontramos referências da aceitabilidade da Lei de Newcomb-Benford ou Lei do Primeiro Dígito [1] no âmbito eleitoral brasileiro como o artigo de Mizrahi [2] e o trabalho de Oliveira Júnior [3]. No âmbito internacional destacamos os estudos do prof. Walter Mabane, da Universidade de Michigan [4], e alguns estudos que contestam o uso da LNB, como é o caso do artigo de Joseph Deckert e colaboradores [5].

Estas foram algumas das referências que serviram de base para os estudos e para a publicação de um white paper intitulado Eleições eletrônicas 2014 no Brasil de Hoeschl e Bueno [1]. Este estudo concluiu que ao menos em primeira análise a LNB se demonstrou perfeitamente aplicável e pode servir de indicador para detectar a necessidade de revisão do resultado de uma eleição. A LNB é um instrumento simples e com alto potencial para a verificação de integridade e conformidade de conjuntos numéricos.

É fato que existem estudiosos que defendem a aplicação da LNB para detectar possíveis fraudes em eleições eletrônicas [2,3,4], enquanto outros não acreditam na sua relevância como um indicador para este fim [5]. Por esse motivo, compartilhamos no final deste post várias referências que nos ajudaram a realizar nosso trabalho. As opiniões a favor ou contrárias ao uso da LNB enriquecem as discussões e fortalecem o processo democrático.

Infelizmente, a disposição para debater não é o que expressam alguns setores do sistema oficial apuratório, quando não admitem qualquer possibilidade de questionamento.

 

Quanto a questão de aplicar ou não a LNB em processos eleitorais, defendemos que é salutar continuar os estudos sobre o seu uso, assim como devemos intensificar o debate e exigir um processo eleitoral mais transparente do que temos atualmente.

 

Angela Iara Zotti

Msc. em Governo Eletrônico

 

Referências usadas neste post:
[1] Hoeschl, Hugo Cesar; Bueno, Tânia Cristina D’Agostini. Eleições eletrônicas 2014 no Brasil. Disponível em: clique aqui
[2] Mizrahi, Salomon S. As últimas eleições e a Lei de Benford (ou Lei do Primeiro Dígito). Disponível em: clique aqui
[3] Oliveira Junior, Francisco Alves de. Evidências empíricas acerca da aplicação da lei de Newcomb-Benford no campo da auditoria do sistema eleitoral brasileiro. Disponível em: clique aqui
[4] Disponível em: http://www-personal.umich.edu/~wmebane/
[5] Deckert, Joseph; Myagkov, Mikhail; Ordeshook, Peter C. The Irrelevance of Benford’s Law for Detecting Fraud in Elections. Disponível em: clique aqui

 

Outras referências
 Hangouts entre Dalmo Accorsini, Hugo César Hoeschl e Tânia Cristina D’Agostini Bueno

 

 

Em português:
http://blogs.estadao.com.br/carlos-orsi/2010/02/12/eleicao-corrupcao-matematica/
http://www.academia.edu/3596147/As_%C3%BAltimas_elei%C3%A7%C3%B5es_e_a_lei_de_Benford_ou_Lei_do_Primeiro_D%C3%ADgito_
https://franciscoalvesjunior.wordpress.com/2010/08/24/evidencias-empiricas-acerca-da-aplicacao-da-lei-de/
 Referencias internacionais:
http://www-personal.umich.edu/~wmebane/
Mebane, Walter R., Jr. 2007. Election Forensics: Statistical Interventions in Election Controversies (pdf); (postscript). Prepared for presentation at the 2007 Annual Meeting of the American Political Science Association, Chicago, Aug 30-Sep 2.
Mebane, Walter R., Jr. 2007. Statistics for Digits (pdf); (postscript). Prepared for presentation at the 2007 Summer Meeting of the Political Methodology Society, Pennsylvania State University, July 18–21.
Mebane, Walter R., Jr. 2007. Election Forensics: Statistics, Recounts and Fraud (pdf); (postscript). Prepared for presentation at the 2007 Annual Meeting of the Midwest Political Science Association, Chicago, IL, April 12–16.
Mebane, Walter R., Jr. 2007. Evaluating Voting Systems To Improve and Verify Accuracy (pdf); (postscript). Prepared for presentation at the 2007 Annual Meeting of the American Association for the Advancement of Science, San Francisco, CA, February 16, 2007, and at the Bay Area Methods Meeting, Berkeley, CA, March 1, 2007.
Mebane, Walter R., Jr., and David L. Dill. 2007. Factors Associated with the Excessive CD-13 Undervote in the 2006 General Election in Sarasota County, Florida (pdf). Draft of January 18, 2007.
Mebane, Walter R., Jr. 2006. Election Forensics: The Second-digit Benford’s Law Test and Recent American Presidential Elections (pdf); (postscript). Prepared for delivery at the Election Fraud Conference, Salt Lake City, Utah, September 29–30, 2006.
Mebane, Walter R., Jr. 2006. Election Forensics: Vote Counts and Benford’s Law (pdf); (postscript). Prepared for delivery at the 2006 Summer Meeting of the Political Methodology Society, UC-Davis, July 20-22.

Categoria: #Artigo

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Angela Iara Zotti

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